Entrevista: Por que a economia verde é a grande oportunidade para o desenvolvimento do Brasil

Os candidatos à presidência que concorrerem nas eleições do ano que vem fariam bem em sentar e ouvir o economista Juliano Assunção, da PUC-RJ e diretor executivo do Climate Policy Initiative (CPI Brasil). Uma conversa com ele é uma oportunidade para conhecer os dividendos que o Brasil pode colher se entrar no esforço para a economia de zero carbono, ou seja, a economia verde. Investir para mudar o modo de vida e produção em prol da sustentabilidade não faz sentido apenas sob o ponto de vista ético ou, até mesmo, para a nossa sobrevivência: trata-se, também, de preparar o país para uma mudança que irá impactar os negócios. É uma revolução parecida com a que ocorreu na revolução industrial, que criou os motores a combustão, a revolução computacional e, mais recentemente, a revolução digital. Os países que criaram essas tecnologias assumiram um papel de protagonismo e enriqueceram; os que ignoraram ficaram para trás. Agora, há uma nova oportunidade para o Brasil finalmente superar a armadilha da renda média e se tornar uma nação próspera e moderna.

 

Segundo assunção, o Brasil tem duas vantagens comparativas que podem posicionar o país na liderança da economia verde: energia e agricultura. O potencial na geração de energias renováveis poderia colocar o Brasil numa posição de destaque nas cadeias globais de produção similar à da China nas últimas décadas. “Assim como a China mudou o fluxo de produção e comércio global ao oferecer trabalho qualificado a baixo custo para as indústrias, o Brasil poderia provocar um fenômeno parecido oferecendo energia renovável barata e abundante para”, diz Assunção.

 

Abaixo, trechos da entrevista ao Convergência pelo Brasil.

 

O que é a economia verde?

 

O significado dessa expressão varia conforme o contexto. No caso brasileiro, economia verde é uma economia com menos desperdícios, que usa os recursos naturais de uma maneira muito mais eficaz.

 

Já em outros países, principalmente entre as nações desenvolvidas, a economia verde está associada a escolhas tecnológicas que colaborem na transição para uma economia de zero carbono. São decisões mais difíceis, que envolvem a substituição de energias poluentes por fontes limpas – e todo um conjunto de custos e benefícios associados a essas decisões.

 

O presidente americano, Joe Biden, está usando a mudança climática para impulsionar a economia, via investimentos em inovação e infraestrutura. A ideia é preparar o país para ser líder da economia verde. O Brasil poderia seguir uma linha parecida?

 

A situação entre os dois países é diferente. O caminho da economia verde passa por reconhecer o impacto dos nossos processos produtivos sobre o clima e a transição vai gerar custos econômicos bastante elevados. Mas também muita riqueza. Como qualquer processo de substituição de tecnologia, haverá ganhadores e perdedores.

 

O Brasil, até pelas suas condições naturais, tem muito a ganhar no processo por conta de nossas vantagens comparativas nas áreas de energia limpa e agricultura. Por uma série de razões, o Brasil talvez seja um dos únicos países que pode aumentar a produção de alimentos sem desmatar florestas. O Brasil tem áreas abertas gigantescas que, em sua larga maioria, são subutilizadas. E o potencial nas fontes renováveis de energia é enorme. Seja solar, eólica ou biomassa. As oportunidades em energia solar são evidentes quando comparamos o Brasil com a Alemanha, país que lidera nesse segmento: o melhor lugar da Alemanha para a geração solar é pior do que o pior local no Brasil.

 

Como o Brasil poderia aproveitar o seu potencial energético?

 

O Brasil poderia se posicionar na economia verde oferecendo ao mundo capacidade de produção com energia renovável abundante. Assim como a China mudou o fluxo de produção e o comércio global ao oferecer trabalho qualificado a baixo custo para as indústrias, o Brasil poderia provocar um fenômeno parecido oferecendo energia renovável barata e abundante. É um caminho muito promissor. O potencial solar e eólico ocorre nas áreas mais pobres do país, como o Nordeste. É uma forma de atrair crescimento de forma concreta e tangível.

 

De que maneira o país poderia se inserir?

O Brasil poderia atrair toda indústria que seja intensiva em tecnologia e precise de energia limpa e barata na produção. Se você analisar a decisão da Alemanha em limpar a matriz energética e se livrar de usinas nucleares até 2050 pode pensar que é uma decisão altruísta. Mas também é um sinal forte ao mundo, como se quisesse dizer “estarei pronto para produzir num mundo que não consegue suportar mais emissões de carbono”. Acho que o Brasil consegue chegar nesse patamar de maneira até mais simples do que a Alemanha.

 

Podemos ir além e pensar no desenvolvimento de inovação e novas tecnologias para aumentarmos o valor agregado da nossa produção?

 

Sim. A questão é como fazer isso. Os grandes saltos de desenvolvimento que ocorreram no Brasil se deveram a saltos tecnológicos, como a agricultura no cerrado. Graças a pesquisas e tecnologias, foram criadas formas de utilização agrícola de uma área que não era apta para o agronegócio. O caso do etanol no Brasil é outra situação interessante do ponto de vista tecnológico. E a indústria brasileira de papel e celulose tem um nível de inovação bastante interessante.

 

Esses exemplos mostram que, quando lidamos com atividades em que temos vantagens comparativas, a própria dinâmica econômica consegue fomentar a inovação necessária. É algo distinto da ocupação da Amazônia. É verdade que ela foi motivada pelo ciclo da borracha, um elemento que, no começo, deu uma vantagem comparativa grande. Mas, depois desse surto inicial, o desenvolvimento foi feito de forma artificial, a custa de subsídios. Criamos uma indústria que depende do Estado. Salta aos olhos a relevância do setor público como fonte de renda e emprego para pessoas na Amazônia. Então, o que precisamos é aproveitar, de maneira concreta, nossas vantagens comparativas. E temos dois caminhos: energia renovável e produção agrícola em áreas abertas. A inovação tecnológica vai ocorrer de forma natural nesses setores. E, além deles, temos, claro, a bioeconomia e a economia da floresta, que precisam estar no radar.

 

Em que nível o país começou essa transição?

 

Até pouco tempo o país conseguia, pela agenda do desmatamento, ocupar um papel de protagonismo no clima por conta dessa inovação, que foi muito interessante e replicável para outros contextos. O Brasil tinha muito a mostrar no combate ao desmatamento, que, aliás, é outra área de inovação tecnológica. O Brasil criou um sistema inovador de combate ao desmatamento que usa tecnologia avançada ao processar informações de satélites quase que em tempo real para monitorar e fiscalizar o desmatamento na floresta. O desenvolvimento dessa tecnologia talvez tenha gerado uma das mudanças mais importantes do mundo tem termos de redução de emissões.

Mas na área de energia nunca conseguimos, de fato, nos comprometer e estabelecer essas ideias, se consolidar como local de fonte de energia renovável e abundante. É uma grande oportunidade perdida. Quanto mais o tempo passa, menor a chance de ocuparmos esse espaço, porque empresas se estabelecem em outros locais e fica mais difícil atraí-las.

 

Não vemos formuladores de políticas públicas olharem o desenvolvimento pela ótica da mudança climática.

 

No Brasil o debate é muito pobre. Não conseguimos aprofundar nenhuma questão. Tudo fica na superfície. As questões são discutidas de maneira muito simplista. Não é apenas no tema ambiental. E, ultimamente, há a camada adicional da polarização, que é ainda mais dramática. Discutir de maneira superficial e polarizada é difícil. Essa agenda requer um certo aprofundamento nas questões. Nas últimas eleições, foi discutido se o aquecimento global existe ou não. Não conseguimos sair disso.

 

O que pode melhorar?

À medida que a comunidade internacional colocou o tema em debate houve uma certa melhora. Os políticos respondem demandas e anseios do eleitorado. Por isso precisamos que a sociedade perceba a importância dessas questões. Eu não tenho dúvidas que o mundo vai se organizar para lidar e encontrar uma solução para esse problema, seja mitigando o carbono ou usando tecnologia. A questão é: como um país como o Brasil, como todo seu potencial, que poderia se beneficiar dessa transição, pode se organizar e tirar proveito disso. Esse passo está associado a uma série de decisões de políticas públicas que vai refletir o desejo da sociedade em caminharmos para essa direção. Hoje está pouco claro se a sociedade consegue entender esses fenômenos.

 

Como conscientizar os gestores públicos sobre os ganhos que o país teria ao investir na economia verde?

 

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. E ela vale não só para o meio ambiente, mas para educação, infraestrutura e outras áreas relevantes para o desenvolvimento. Fato é que o mundo está se organizando para lidar com o assunto de forma séria. O Brasil tem uma oportunidade grande, mas precisamos fazer o dever de casa. E vejo que o dever parece cada vez mais distante por incompreensão das pessoas sobre o que acontece no mundo em relação ao clima e aos movimentos políticos.

 

O que pode mudar essa situação?

 

Pressões externas e de comércio internacional. E um elemento novo é o mercado financeiro, que tem sido muito mais vocal. O mercado tem o poder de afetar a atividade econômica em larga escala. Os padrões de investimento afetam a produção. Mas é uma pena porque não precisaríamos de nada disso se fôssemos capazes de ver que o Brasil tem muito a ganhar com a transição para a economia verde.

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