Em entrevista ao Convergência pelo Brasil, Eduardo Viola fala sobre a “geopolítica verde” e o papel de países e empresas no desafio de zerar as emissões de carbono.

“O mundo só quer a preservação da Amazônia. Entrar na economia verde é interesse nosso”, diz Eduardo Viola

Eduardo Viola é pragmático em relação à adaptação do Brasil na economia de zero carbono. O mundo, diz um dos maiores especialistas em geopolítica, está preocupado apenas com a preservação da floresta amazônica. O desmatamento da floresta corresponderia à liberação de 10 anos de emissões globais de carbono na atmosfera.

 

Ter um papel mais ambicioso na economia verde, fomentando a produção de energia renovável, por exemplo, é de interesse apenas do Brasil. Para evitar os piores impactos da mudança climática, os países desenvolvidos saíram na frente no fomento à pesquisa e inovação para adaptar a economia ao desafio do carbono zero. Não se trata de um custo – mas de oportunidade. Os países vencedores nessa corrida serão detentores de tecnologias que os posicionarão como os protagonistas da economia do século 21.

 

Se o Brasil não se adaptar, ficará para trás. “Teremos um parque produtivo sucateado e a competitividade do Brasil será cada vez menor”, disse Viola. Ou seja, um país que continua estagnado na renda média.

 

Em entrevista ao Convergência pelo Brasil, Viola, que é pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UNB), falou sobre a “geopolítica verde”, o papel do presidente americano Joe Biden, de países e empresas no desafio de zerar as emissões.

 

Abaixo, os principais trechos.

 

O senhor está otimista de que vamos manter o aquecimento em até 2ºC?

 

Em termos. Existem muitas razões para pessimismo e poucas, mas crescentes, para otimismo. Acho que limitar o aquecimento a 1,5º C nenhum climatólogo acha possível. Limitar a dois graus é muito difícil, mas existe alguma possibilidade. E se ficarmos nisso ainda assim veremos aumento de eventos climáticos extremos em frequência e intensidade. Mas ainda é uma situação manejável. O problema é que, na tendência atual, vamos para 4º C até o fim do século e isso será devastador. Não envolve a extinção da espécie humana, mas será devastador, especialmente para os mais vulneráveis.

 

Então o que justifica um certo otimismo?

 

De fato, a trajetória da maioria dos países não é de cumprimento das metas apresentadas em Paris. Mas eu sou um otimista cauteloso. E esse sentimento está vinculado a transformações importantes recentes. E destaco a mudança de percepção, por parte das grandes corporações globais e dos fundos de investimento da Europa, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Taiwan e Estados Unidos. Eles estão internalizando o risco climático nas decisões de investimento. Óbvio que isso não vale para empresas de combustíveis fósseis. A última pesquisa apresentada no Fórum Econômico Mundial, em Davos mostrou que os CEOs das grandes empresas colocaram o risco climático como maior risco da humanidade. Esse aumento da conscientização sobre a mudança climática também está ocorrendo na sociedade, particularmente entre os mais jovens. A ideia da “recuperação verde” no pós Covid está cada vez mais popular.

 

E a mudança nos Estados Unidos promovida pelo presidente americano, Joe Biden?

 

Sim, outra coisa importante é a mudança nos EUA. A vitória democrata nas eleições, e o fato de que o governo Biden estar assumindo atitude muito ambiciosa são pontos que devemos celebrar. A agenda de Biden é muito mais profunda que a de Obama.

 

Recentemente, Biden reuniu 40 líderes para discutir as mudanças climáticas. Ele está, de fato, comprometido em combater a mudança climática?

 

Sim, para Biden e os democratas o discurso é absolutamente genuíno. Há uma ala mais progressista que quer metas ainda mais profundas. Mas é importante lembrarmos que a sociedade americana é muito dividida. Cerca de 40% do eleitorado ainda responde a Trump. E um republicano trompista é negacionista em relação à mudança climática. E essa é a grande vulnerabilidade dos EUA. Se os republicanos se tornarem a maioria do Senado e da Câmara nas próximas eleições, em 2022, que é algo comum, a adoção dessa agenda fica ameaçada e será limitada. E, se em 2024, um republicano trumpista volta, seria um enorme retrocesso. Para a implementação do plano de Biden, é fundamental a vitória democrata nas eleições de 2022 e 2024. A boa notícia é que os pacotes do Biden, primeiro de resgate, depois de infraestrutura, além do pacote para o capital humano, podem gerar um processo de apoio mais amplo na sociedade, inclusive de eleitores que votaram em Trump. O republicano se elegeu se colocando a favor dos pobres e não cumpriu grande parte dessa agenda. Se Biden diminuir a pobreza e a desigualdade, poderá consolidar a agenda democrata. E, obtendo a maioria no Congresso e sendo reeleito, poderá cumprir de 80% a 100% do seu plano.

 

Os EUA serão os líderes mundiais da agenda verde?

 

Por enquanto os líderes são União Europeia e Reino Unido. Biden pretende colocar os EUA no nível deles. Para isso precisa percorrer o caminho. Uma coisa é o discurso. A economia europeia já está em processo de descarbonização. Não com a rapidez necessária, mas está fazendo isso há duas décadas. Os EUA são mais recentes. Mas a grande questão é: para ter impacto, o processo não pode ser liderado apenas pela União Europeia e EUA. A participação da China é fundamental. A pegada de carbono da economia chinesa é muito maior e a transição será lenta. No primeiro momento, a ofensiva de Biden na China deu certo. XI Jinping participou da cúpula. Vamos ver se, na COP26, em Glasgow, ele vai aumentar a ambição das metas. A entrada da China nesse grupo teria um impacto profundo no mundo. E, em seguida, precisamos da entrada de dois grandes emissores, Índia e Rússia, onde não vemos trajetória de descarbonização. Pelo contrário. No caso da Índia pelo uso do carvão para produzir eletricidade; e, na Rússia, por ser um grande produtor de combustíveis fósseis, além de ser grande consumidor de carvão.

 

E o Brasil?

 

O mundo espera apenas uma coisa do Brasil: controlar o desmatamento. As florestas brasileiras são depositárias de gigantescos sumidouros de carbono. A Amazônia tem um estoque de carbono que corresponde a dez anos de emissões mundiais. Só por isso dá para entender o impacto do desmatamento. O Cerrado e o Pantanal também têm muito carbono armazenado. O mundo está preocupado com essas emissões. Mas, para o bem do país e da sociedade brasileira, deveríamos ir além na questão. Precisamos entrar na economia verde. Caso contrário, nosso sistema produtivo ficará para trás. Teremos um parque produtivo sucateado e a competitividade do Brasil será cada vez menor. O mundo não vai ser importar com a economia brasileira. Essa é uma questão nossa.

 

Pode citar um exemplo de como estamos ficando para trás?

 

As montadoras de carros. As matrizes têm planos para acabar com a produção de veículos com motor de combustão. Mas não vimos, até agora, nenhum movimento das fábricas locais.

 

Não deveríamos apostar na nossa vocação como produtor de energia renovável abundante e barata?

 

Sim. O país tem vantagens comparativas na produção de energia alternativa. Aproveitá-las poderiam resultar na atração de investimentos e na renovação do nosso parque industrial. Mas ter essas vantagens não é condição suficiente. O problema é a ineficiência crônica do estado brasileiro em desenvolver políticas públicas. Temos um estado grande, mas ineficiente. E precisamos de políticas públicas para alterar o rumo do setor industrial. É preciso muita coordenação estatal, algo que não temos.

 

O que poderia ser feito?

 

Precisamos ter um governo “a la Biden” no Brasil para implantar uma política industrial voltada para a economia verde.

 

Qual setor é mais importante para evitarmos os principais problemas da mudança climática: governos ou empresas?

 

O papel mais forte de liderança é dos governos. Mas são as empresas que emitem. Quem pode mudar o sistema produtivo são elas. Agora, se temos governos incisivos, a situação é muito melhor. Se os governos são fracos, as empresas poderiam liderar, como ocorreu nos Estados Unidos durante Trump. Mas o ideal é que todos estejam convergindo.

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