“Governos e empresas começam a levar a mudança climática a sério”, diz Lincoln Alves

Lincoln Alves é um dos maiores cientistas do clima do Brasil. Há décadas ele estuda os efeitos da mudança climática – e alerta a população, empresas e governos, sobre os impactos das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera.

 

Em entrevista a Convergência pelo Brasil, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) falou sobre a crise hídrica que estamos vivendo e sobre a (falta de) reação de governos sobre os alertas dados lá atrás. Mas ele diz que há motivos para otimismo, a despeito do grande desafio da humanidade em criar uma economia de zero carbono.

 

A crise hídrica que está afetando a economia surpreende de algum modo?

 

Os eventos climáticos extremos não são novidade. Quando olha o passado, você identifica eventos significativos. Porém, o que a gente observa em particular, nas últimas três décadas, é que esses eventos têm se tornado cada vez mais frequentes e com intensidade maior. Então, parte do problema é relacionado à mudança do clima. Mas quando fala em crise hídrica, outros fatores relacionados, como aumento da demanda, seja crescimento da população, consumo do setor industrial e desperdício, tornam ainda mais grave um evento extremo quando ele acontece, como a seca que vivemos.

 

E o que podemos esperar para o futuro?

 

Estamos vivemos um cenário que tínhamos alertado as agências reguladoras e o poder público lá atrás. As projeções baseadas nos estudos que são reportados no IPCC indicavam esse “novo normal”. E isso está se tornando mais evidente. Então, o que estudos como o novo relatório do IPCC reforçam é que, o que a gente tinha com media confiança há sete anos, hoje temos como certeza indiscutível. E as projeções indicam que os cenários climáticos extremos se tornarão algo corriqueiro.

 

Como foram esses alertas feitos ao governo?

 

Há 10 anos, participamos de uma consultoria na Aneel. A gente pontuava as regiões que iriam sofrer esse impacto. Alertamos que não daria só para contar com a chuva, mas a expansão do setor elétrico contava com novas hidrelétricas na Amazônia. O nosso estudo mostrava que não era o local ideal. Projeções indicavam redução de chuva na região.

 

Como o alerta foi recebido?

 

A incorporação de informações técnicas na tomada de decisão ela é muito marginal. Eles não levam como uma premissa básica. Tem um cunho político muito forte na tomada de decisão.

 

E hoje?

 

Todos os setores estão vendo o aumento na frequência dos eventos climáticos extremos e estão sentindo na pele o impacto na cadeia produtiva. E estão de alguma maneira considerando o risco climático como elemento importante na tomada de decisão. Mas até pouco tempo isso não era levado em conta. Conversamos com diversos ministérios, como infraestrutura, saúde e, também, com o setor privado. Eles já estão percebendo esse custo que se torna elevado e aí estão considerando, de fato, essas informações. Tivemos uma reunião no Banco Central há poucas semanas. O BNDES contatou a gente, eles perceberam que o risco que estão expostos é muito alto. Eles querem considerar essas informações nos financiamentos a projetos.

 

Então podemos ser otimistas?

 

Podemos responder de duas formas. Do ponto de vista global, se pensar na mudança do clima, não vamos atingir a meta definida do acordo de paris 1,5º C, já que estamos em 1,1º C. Mesmo se todos os países cessassem as emissões hoje, provavelmente próxima década atingiria 1,5ºC e isso já tem impacto significativo. Porém, pensando no lado otimista, essa onda de sustentabilidade que sempre é uma oportunidade para nos reinventarmos e olharmos essa nova realidade. Diversos setores econômicos estão buscando oportunidades a partir da nova realidade. E considero positivas essas inciativas de setores estratégicos da sociedade. Em particular do setor privado.

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