“Não existe dilema entre sustentabilidade e lucratividade”, diz Hugo Bethlem

Não faz muito tempo que se acreditava que a única função de uma empresa era gerar lucro ao acionista – e, pior, que valia (quase) tudo para cumprir esse objetivo. Nos últimos anos, cresceram os movimentos que defendem um capitalismo que gere valor não apenas para os sócios e controladores, mas para funcionários, fornecedores, clientes e demais stakeholders: é o chamado capitalismo consciente.

 

Dentro das premissas do capitalismo consciente está a defesa do meio ambiente. Afinal, todo negócio, por menor que seja, impacta o meio ambiente. E se o futuro da humanidade depende da preservação da natureza – e da criação de uma economia de zero carbono – as organizações empresariais não podem ficar de fora.

 

Em entrevista a Convergência pelo Brasil, Hugo Bethlem, presidente do Conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, fala sobre o ESG nas empresas e como elas podem acelerar a transição para a economia de zero carbono.

 

A recente preocupação das empresas em torno do ESG é legítima?

Eu acho que, primeiramente, existe questão básica: afinal, ESG veio para ficar ou não? Para uma empresa ser verdadeiramente ESG, deveria colocar na frente a governança. E não pode tolerar ações e investimentos no social ou no ecoambiental que sejam “de fachada”. Há alguns dias, o Fabio Barbosa disse que uma frase muito importante: “A cada dia, entra no mercado um jovem que leva em conta critérios ESG na maioria de suas decisões.” Luiza Helena Trajano disse que quem não entrar na causa não terá mais valor. Em cinco anos, haverá dois tipos de empresas: as que respeitam o ESG e as que não têm valor.

 

Como uma empresa pode “se tornar” ESG?

 

ESG não é um destino, mas uma longa jornada. É importante dizer que a empresa que segue o velho capitalismo, cuja única responsabilidade é a maximização do retorno ao acionista às custas de dor, miséria e sofrimento aos outros stakeholders, não pode falar em ESG. Por isso é preciso que as empresas que vão falar em ESG estejam voltadas ao bem-estar e enriquecimento de todos os stakeholders. Mas quando se fala em ESG no BR é diferente do mundo.

 

Em que sentido?

 

Na Europa, onde o tema está mais avançado, a preocupação maior é com o meio ambiente. E com razão, já que destruíram boa parte do território e agora entendem a falta que o meio-ambiente faz. No Brasil, a preservação dos nossos biomas, Amazônia, Mata Atlântica, Pantanal, Cerrado etc. são fundamentais para a nossa sobrevivência e do resto da humanidade. Com a África, somos o coração do mundo. Mas nossos problemas são diferentes no âmbito social. Somos um dos 10 países mais ricos do mundo e um dos mais desiguais. Por isso o social deveria ser a preocupação maior de nossas empresas. Não só na filantropia. Mas principalmente na questão interna das organizações.

 

Como?

 

Diminuindo as desigualdades de gênero, etnia, PCD. Respondendo a questões como ‘será que os salários pagos aos colaboradores são suficientes para uma vida digna?’ ‘A diferença de remuneração entre o presidente de quem começa na companhia é justa?’ As empresas precisam cuidar de questões como inclusão, habitação, segurança, educação e saúde das pessoas.

 

Como distinguir uma empresa realmente comprometida com ESG com uma empresa que adota o “ESG de fachada’?

 

As empresas realmente comprometidas devem ter quatro pilares: um propósito que esteja ligado à resolução de um problema ou desafio da humanidade; tratar todos os stakeholders – colaboradores, fornecedores, clientes, comunidade e acionistas – de forma equânime, de tal maneira que os resultados financeiros sejam uma consequência; criar uma cultura e valores que garantam a perpetuidade do negócio; e ter uma liderança consciente e que cuide das pessoas. Quando construímos um negócio, criamos um contrato social, que é um contrato não apenas com os sócios, mas com a sociedade.

 

Focando na questão ambiental, qual o papel das empresas na transição para a economia de zero carbono?

 

A liderança desse processo é das empresas. Até porque não devemos ficar esperando a tutela do estado. Quem esperar por isso estará agindo com atraso. O capital social e capital ambiental vão estar muito caros. Porque, durante muitos anos, até duas décadas atrás, eram algo praticamente de graça. Era imperceptível o que as empresas faziam com as pessoas e o meio ambiente. Hoje não. Hoje é relevante demais. Todo tipo de negócio gera impacto social e ambiental, seja uma grande mineradora, seja um autônomo que trabalha em regime de home office. E cada empresa deve buscar mitigar, zerar e gerar impacto positivo de carbono. Nós avançamos além dos limites naturais do meio ambiente. E isso está gerando grandes impactos. Mesmo que estivéssemos mais comedidos nos custos ambientais, só o fato de haver perto de oito bilhões de pessoas no planeta provoca um impacto muito grande. O capitalismo trouxe inúmeros benefícios, mas muitos malefícios. Um dos benefícios foi a inclusão de pessoas que estavam na pobreza. Quando uma pessoa deixa a pobreza, passa a consumir. Nas últimas décadas, vimos 400 milhões de pessoas na China, 300 milhões na Índia mais 100 milhões na América Latina entrando no mercado consumidor. É natural que elas sejam ávidas em consumir. E não podemos dizer que elas não podem consumir, porque, “nós, os ricos”, já consumimos e estamos esgotando o planeta.

 

Como resolver esse dilema?

 

O único jeito é mudarmos o modelo econômico, que atualmente é linear: eu tiro recursos naturais, transformo os recursos, transporto, consumo e jogo fora, gerando impactos ambientais em cada etapa. Temos que evoluir para a economia circular. Dá trabalho. Envolve todos os stakeholders. Mas é algo complexo e necessário.

 

Podemos contar apenas com a ética ou consciência das empresas para adotarmos um modelo sustentável? Ou a mudança só ocorrerá quando a mudança for mais barata ou mais lucrativa?

 

Não existe o dilema entre sustentabilidade e lucratividade. Ser sustentável sem ter lucro leva à falência. Ter lucro sem ser sustentável leva à falência. Precisamos, sim, buscar processos sustentáveis. O preço de energia de fontes renováveis mostra que a transição é possível e viável. Em 1977, 1 quilowatt de energia solar custava 40 dólares. Em 2021, custa 50 centavos e, em alguns anos, vai custar perto de 0,01 centavo de dólar. Ou seja, não vai ser mais caro ser sustentável. É fundamental que todos convirjam para processos sustentáveis usando inovação. Einstein dizia que nada é mais irracional do que querer resultados diferentes fazendo tudo igual. Precisamos inovar. E isso demanda coragem para adotar uma mentalidade de risco. Precisamos de um plano B porque não temos um planeta B. Vamos ter que resolver a questão agora – e estamos atrasados.

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