“Falar em ESG sem atuar na redução do desmatamento da Amazônia é como ‘tapar o sol com a peneira'”, diz Mariano Cenamo

O engenheiro florestal Mariano Cenamo é um dos grandes nomes do desenvolvimento sustentável da Amazônia. Ele é especialista em mudança climática e um dos fundadores do Idesam, uma ONG que atua com produtores rurais e comunidades da Amazônia para promover o uso sustentável da floresta. Em 2021, criou a Amaz, aceleradora de startups na região Amazônica.

 

Em entrevista ao Convergência pelo Brasil, Cenamo falou sobre a economia verde e formas de gerar desenvolvimento a partir do uso sustentável da floresta.

 

Hoje a economia da região Amazônica depende parcialmente de atividades que promovem a destruição da floresta. É possível mudar de fato a situação?

 

Eu não vejo outro caminho. Se não criarmos uma nova economia a partir da conservação e uso sustentável da floresta, ela será totalmente destruída. E obviamente isso não é algo condizente com o futuro do planeta.

 

Como fazer isso?

 

Nós precisamos de uma nova geração de empreendedores e negócios de impacto, que tenham como propósito reinventar a economia da região. Para isso é necessário investimento público e privado. Ao governo cabe investir em educação, pesquisa e desenvolvimento aplicados à bioeconomia amazônica. As empresas que atuam na região precisam incorporar produtos sustentáveis em suas cadeias de fornecimento. Os investidores precisam entender melhor a região e ajustar suas estratégias de investimento para incorporar o risco-retorno socioambiental nos negócios. Todo mundo precisa fazer um pouco.

 

Qual é a grande dificuldade?

 

Não existe um modelo. Todas as grandes nações do mundo desenvolveram suas economias às custas do consumo insustentável de recursos e habitats naturais. Não há um único caso de país – rico ou pobre – que se desenvolveu economicamente a partir da conservação ou uso sustentável da floresta. A missão que temos à frente é comparável à revolução industrial: precisamos nos reinventar completamente.

 

Depende do quê?

 

De vontade política e investimentos. Vejo com otimismo o comportamento das novas gerações, millenials e Z, que crescem sob a ameaça de uma catástrofe climática, em pressionar empresas, marcas e investimentos. Mas a transição precisa ser mais rápida e os governos precisam acompanhar.

 

De que forma?

 

Investindo forte em educação, pesquisa, desenvolvimento e incentivos – que são instrumentos que todo governo usa para incentivar determinado o setor. O problema é que o foco está errado. É inaceitável nossos governos continuarem incentivando setores e atividades econômicas que fazem mal ao clima, como a indústria do petróleo ou automobilística. Eu adoraria ver incentivos para empresas que se comprometem a gerar renda, emprego e prosperidade a partir da conservação da Amazônia.

 

Há setores que jogam contra?

 

Tirando as atividades ilegais de garimpo e desmatamento associado à agropecuária, eu acho que ninguém joga contra. O que falta é mais gente jogar a favor. É uma agenda de ganha-ganha. Desenvolver a economia a partir da conservação da floresta faz bem para todo mundo. Não vejo inimigo oculto. Vejo falta de visão de desenvolvimento para a região. Só isso.

 

E como está o interesse das empresas e investidores?

 

Está aumentando. Mas ainda é tímido. Precisa crescer mais. Ano passado vimos algo nunca visto no Brasil: quase todas as grandes empresas do Brasil se manifestaram contra a alta no desmatamento na Amazônia, que teve a sua maior taxa dos últimos 10 anos. Ou seja, as empresas estão preocupadas e comunicam isso, mas infelizmente ainda temos poucas ações e resultados concretos. Toda grande empresa que surfa na onda ESG deveria ter uma agenda para a Amazônia. No Brasil, o grande vilão das emissões de carbono é o desmatamento e as queimadas na região. Então, falar em ESG e mudança do clima sem atuar para reduzir o desmatamento da Amazônia é como “tapar o sol com a peneira”. Não quero desmerecer nenhuma iniciativa, é ótimo ver o movimento de tantas empresas dispostas a melhorar sua performance na agenda ambiental, social e de governança. Mas, quando o assunto é Amazônia, tenho visto mais discurso do que prática. E isso precisa mudar. O setor privado precisa assumir a posição de protagonista. Precisamos ver grandes investimentos.

 

Não há?

 

Sim, existem algumas empresas que fazem transformações relevantes na região. No entanto, na maioria das vezes o fazem com estratégia de filantropia. O papel desempenhado pelos institutos e fundações é fundamental para testar conceitos e mostrar caminhos, mas geralmente representa uma fração pequena do bolso das empresas. Eu gostaria de ver mais empresas encarando a Amazônia e a construção de uma nova economia regional como oportunidade de negócio.

 

Como seria essa nova economia?

 

É difícil prever exatamente como seria. Quando inventaram a internet, não se imaginava o quanto ela transformaria a nossa vida e a economia global. Eu acho que estamos à beira de uma transformação similar. A humanidade precisa mudar radicalmente a forma como a nossa economia se relaciona com o planeta – e as florestas estão no centro desse dilema. Precisamos aprender a nos desenvolver sem desmatar. Existe uma demanda para isso. Empresas inovadoras irão surgir e crescer rapidamente nas áreas de biotecnologia, produção de alimentos à base de plantas, logística, produtos madeireiros e não madeireiros, cosméticos, remédios e vacinas, turismo…  apenas para enumerar algumas.

 

E o mercado de carbono?

 

Eu acredito muito no mercado de carbono, que é uma ferramenta fundamental para promover a conservação e restauração de florestas. Existe uma demanda crescente e impressionante de empresas que estão iniciando uma transição em sua cadeia produtiva e buscam estratégias para compensar suas emissões de carbono. A possibilidade de realizar essa compensação e ainda contribuir para o desenvolvimento sustentável na Amazônia é incrível. Sem falar no manejo florestal, que hoje passa por muita dificuldade. A exploração sustentável de madeira deveria ser altamente competitiva e poderia ser um líder na economia regional, gerando emprego e renda – como já fez no passado. No entanto, com alta burocracia e o enfraquecimento recente dos órgãos de fiscalização, as boas empresas dificilmente competem com a exploração ilegal.  Piscicultura e turismo têm também um potencial incrível ainda pouco explorado.

 

E qual o papel que a Amaz pode ter para ajudar na criação dessas cadeias de valor?

 

Estamos em busca de empreendedores dispostos a colocar tudo isso em prática. Instituímos um primeiro fundo de financiamento híbrido que recebe investimento de institutos, fundações e investidores privados, e que vai identificar, selecionar, investir e apoiar o desenvolvimento de negócios de impacto com foco em produtos e serviços que contribuam para a conservação da floresta amazônica. A AMAZ utiliza capital filantrópico e investimentos privados e vai investir um total de R$ 25 milhões em 30 negócios de impacto da Amazônia. A nossa meta é alavancar mais R$ 50 milhões de investimentos privados e garantir a conservação de 5 milhões de hectares de florestas gerando renda para 10 mil famílias nos próximos 10 anos.

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