Confira entrevista de Fabio Alperowitch ao Convergência pelo Brasil.

“Seria maravilhoso ver os investidores valorizando empresas responsáveis e penalizando as irresponsáveis”

Fabio Alperowitch, diretor da Fama Investimentos, é um dos grandes nomes quando o assunto é ESG, sigla em inglês para meio-ambiente, social e governança, que mede o impacto social e ambiental dos negócios. E um dos mais atuantes: ativo nas redes sociais e no contato com a imprensa, ele atua como um líder do ESG no mundo dos investidores e não se furta a criticar empresas por greenwashing (banho verde, termo usado para organizações que se apropriam de forma injustificada de virtudes ambientalistas via marketing) nem seus pares pela falta de conhecimento a respeito da economia verde.

 

Em entrevista ao Convergência pelo Brasil, o diretor da gestora de ativos focada em ESG e a primeira a investir apenas em empresas com boas práticas ambientais falou sobre o grau de (i)maturidade do setor financeiro a respeito da mudança climática e o papel que os investidores podem ter para forçar as empresas a adotar melhores práticas ambientais.

 

O setor financeiro leva em conta as mudanças climáticas nos investimentos?

 

No Brasil, zero. Uma minoria adota um discurso sobre a importância do tema, mas ainda não faz nada em relação ao ele. Para falar do mundo, vou fazer algumas generalizações. A Europa, de um modo geral, está mais avançada. O que ocorreu com a Shell é um exemplo (no dia 26 de maio, o tribunal de Haia, na Holanda, ordenou que a unidade holandesa da Shell cortasse emissões de CO²). Se o debate chega ao ponto de um tribunal votar pela responsabilização de uma empresa em relação ao clima, você vê o quão avançado o tema está na Europa. No Brasil, a chance de isso ocorrer é zero. O mercado de carbono nem é regulado. Nos Estados Unidos, até 2016 e 2017, o tema era pouco expressivo. Tinha a Califórnia que levava um pouco as questões ambientais em consideração, mas longe de ser um debate predominante. Agora há vários investidores que levam essas questões em consideração na hora de investir. Mas ainda há muito greenwashing e pessoas que ainda acham que o tema é bobagem.

 

Por que o Brasil está tão atrasado?

 

O tema não é maduro o suficiente. O portfólio da Fama é carbono negativo. Fomos a única empresa que mediu a pegada de carbono das empresas em que investimos. Não estou me vangloriando disso. Mas é algo que ninguém mais fez. Isso não está na cultura do investidor. Fomos o primeiro signatário na América Latina do Net Zero Asset Managers Initiative, um grupo internacional de gestores de fundos comprometidos a colaborar com a meta de zerar as emissões líquidas de gases do efeito estufa até 2050 (atualmente os 87 signatários gerem US$ 87 trilhões em ativos). Meses depois, a JGP entrou no grupo. Mais ninguém assumiu o compromisso formal de descarbonizar o portfólio. Nenhum banco brasileiro assinou uma iniciativa semelhante para o setor bancário. Para piorar, alguns bancos estão anunciando serem carbonos neutros e que, por isso, eles são “amigos do clima”. É uma falácia. A emissão de gases de efeito estuda de bancos são irrelevantes. Eles resolvem isso com um talão de cheques. Se os bancos querem ser amigos do clima, devem cortar financiamentos e parar de investir em combustíveis fósseis. Como disse, os brasileiros não assumem compromissos. É muita falação e pouca atitude.

 

Recentemente, o Banco Central colocou em consulta pública a proposta para que bancos levem em conta questões climáticas entre os riscos a ser monitorados.

 

Espero que aconteça. A regulação é muito importante. Para saber o quão aderentes estão ao Acordo de Paris, os bancos terão que fazer inventário das carteiras de crédito. E isso provoca uma reação em cascata. Quem está recebendo financiamento tem que ser transparente em relação ao clima.

 

Qual papel o sistema financeiro poderia ter para a economia verde?

 

Cientistas alertam há 40 anos sobre a questão climática e a sociedade empurrou com a barriga por décadas. Finalmente mundo acordou. Pessoas entenderam o tamanho do problema e o esforço gigante para reverter a curva de aumento da temperatura. Agora que estamos no ponto de quase calamidade, não basta que só os governos atuem para resolver o problema. Precisamos de um esforço conjunto de governos, empresas, sociedade civil e sistema financeiro. Os investidores, na verdade o sistema financeiro como um todo, têm um papel fundamental. Se o capital correr para ativos carbono eficientes e se afastar dos que não sejam, incentiva as indústrias a fazer a transição. E há o lado educacional. Pense no poder dos assessores de investimento, que recomendam investimentos, caso eles tivessem conhecimento sobre o assunto e recomendassem investimentos nas empresas mais eficientes.

 

De que forma os investidores podem impor essa agenda verde?

 

Varia de pais para pais. Nos EUA, a maior parte das empresas têm capital pulverizado. Isso significa que, se os investidores se juntam em torno de um tema, já está decidido. Se alguns lideram um movimento para a empresa se descarbonizar, respeitar agenda do clima, a questão está resolvida. No Brasil, o panorama é diferente. As empresas têm controle definido. Ainda que investidores subam na mesa para pedir mudanças, se o controlador disser não, é não. No Brasil, o engajamento do investidor precisa ocorrer fora das assembleias, que são pouco representativas. Um dos principais instrumentos é o preço da ação.

 

Eles deveriam vender as ações?

 

Sim. É verdade que, se eu compro ações da Petrobras, não estou aumentando ou diminuindo as emissões delas. Porém, se existe demanda por ações da Petrobras a um nível de preço elevado, não se cria um senso de urgência por mudança. Enquanto empresas poluentes e sem compromisso com o clima estiverem sendo bem cotadas na bolsa, qual a pressão que esses líderes das empresas têm para causar a transformação? Seria maravilhoso ver os investidores valorizando empresas responsáveis e penalizando as irresponsáveis. Se essas empresas começarem a perder valor, quem sabe seus líderes admitem que há um problema e mudem.

 

E cortar financiamento para novos projetos?

 

Sim, a ação mais relevante é cortar o financiamento para novos projetos de empresas emissoras.

 

Boa parte dos investimentos na economia verde dependem de inovação e, são, portanto, mais arriscados. Por essa característica, eles costumam ser limitados a investidores profissionais (com pelo menos R$ 10 milhões em investimentos). Ou seja, o pequeno investidor não tem opções se quiser financiar a economia verde. Não seria o caso de mudar essa regra?

 

Temos o costume de qualificar pessoas por poder aquisitivo. Acho que deveria haver outro tipo de parâmetro. Minha empresa sempre foi mais procurada por grandes investidores institucionais. Aos poucos estamos nos aproximando de pequenos investidores. Há poucos dias, reduzimos o investimento mínimo para R$ 1000 para facilitar a entrada deles. Recebi muitos agradecimentos de jovens que estão iniciando suas carreiras, querem iniciar a construção de uma carteira de investimentos sustentáveis.

 

Hoje o ESG está na pauta das empresas. Mas não há muito oportunismo, ou seja, as empresas assumem metas tímidas que servem apenas para impulsionar ações de marketing?

 

Ótimo ponto. As pessoas confundem redução de emissão com neutralização de emissões como se fossem a mesma coisa. Os investidores deveriam cobrar as empresas a reduzir emissões e só neutralizar o que não puderem reduzir. O caminho não é compensação, é redução de emissões. Investidores não têm essa percepção. Outra questão relevante é que as empresas assumem compromissos num tempo muito distante, sem metas intermediárias nem mecanismos para se chegar lá. Isso reduz o poder de cobrança dos investidores. E aí, temos a empresa XYZ que divulga compromisso de carbono neutro em 2050. Os investidores aplaudem e parar de cobrar a companhia como se ela estivesse bem encaminhada. Aí os investidores correm o risco de descobrir em 2049 que pouca coisa foi feita. Obviamente, será tarde demais. As promessas para 2050 deveriam ter metas intermediárias e divulgação do plano de ação.

 

E como os investidores veem, de fato, a agenda ESG?

 

Hoje o assunto está bem difundido. Nunca se falou tanto de ESG. Os investidores são bombardeados com o tema. Mas, para grande parte deles, parece ser algo separado dos investimentos. Eles veem ações de diversidade e preservação e admitem que é algo positivo. “Olha, que bacana, direitos dos negros, preservação da Amazônia”. Mas, na hora de escolher as empresas para investir, eles não levam o ESG decisão. É como se o ESG fosse um assunto que defende “causas legais”, mas que passa longe dos investimentos. Eles não entenderam que investimentos em empresas que respeitam o ESG rendem mais (leia aqui artigo de Alperowitch sobre o tema). A XP tem feito um grande trabalho de educação sobre o tema e lançou um fundo ligado a ESG. Depois de um ano, tem R$ 40 milhões sob gestão. É inexpressivo perto das centenas de bilhões de reais no mercado.

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